Nasci com o cordão umbilical enrolado em meu pescoço, numa tarde vazia de domingo, meu pai morreu me maldizendo, pois nasci atrapalhando o jogo. Minha mãe me desmamou antes dos seis meses, tive anemia, vivia doente e fiquei internada por um tempo. A vontade de morrer, eu carrego deis do meu nascimento, talvez seja essa vontade me motive a continuar vivendo...
Largando um pouco esse negócio de família, vamos para o boteco, não um boteco qualquer e sim um boteco pequeno, com gordura no azulejo, pingas vagabundas, bêbados caídos e um cara metido a malandro fazendo jogo do bicho. Costumo chegar sempre de lado, com um olhar meio torto, é a minha forma de me defender de certas cantadas e de não ter que dividir os meus cigarros. Mal chego e já dou de cara com o Cabeça, ele é um tipo de amigo meu, sempre escorado no balcão do bar, se diz dono, mas a ex-mulher vive o ameaçando de tirar tudo, como se esse tudo fosse lá grade coisa:
-Fala, minha Linda. Demorou para dar as caras hoje.
-Nada, tive que ir para a consulta, fiz uma hora em casa e agora estou aqui.
-Já falei pra você largar de frescura, esse negócio de depressão é coisa de quem não sabe beber.
-E quem disse que eu sei beber? Atualmente eu só mando para dentro, sem motivo ou vontade.
-Bom, eu bebo pra poder sorrir, depois que aquela vaca me largou, só o que tenho é o bar e minhas dividas. Vai vendo aí o que você vai beber, que eu vou acertar a conta do engomadinho ali.
Acenar com a cabeça é o suficiente, afinal o Cabeça é um cara pratico que me define como uma viciada que gosta de indagar, ele acredita que a maioria das minhas piras é por conta da bebida, quando na verdade a bebida só me amolece, gosto quando ele me chama de linda, nunca fui lá muito elogiada e detesto o meu nome:
-Pronto, já sabe o que quer?
-Saber eu não sei, mas em consideração ao tempo morno, vou ficar com a cerveja.
-Meia-hora pra no final das contas você me dizer que quer cerveja.
-Estou com preguiça de pensar sobre copos, só quero virar, conversar um pouco e pagar a porra da minha conta.
-Toma a tua cerveja e vê se bebe sorrindo, tô te dando mais prazer do quê a tal doutora e te cobrando bem menos.
-Isso é verdade, mas não vem ao caso.
-Tanto faz, qual foi a merda que ela te falou dessa vez?
-Nada muito importante, tenho que continuar escrevendo no tal caderno.
-O diário?
-Não é um diário, segundo ela é algo mais profundo.
-Linda, profundo de cu é rola, já chega a minha ex falando que eu preciso ser profundo, agora vem você com essa putaria? Você tem é que mandar essa tal doutora ir colar velcro com alguma paciente retardada e já era. Você é ajeitadinha, poderia muito bem arrumar um namorado e largar dessa mania de se sentir doente.
-Eu poderia fazer isso, mas tenho medo, preguiça, sei lá. Já me fodi tanto emocionalmente que por agora estou evitando qualquer tipo de intensidade emocional.
-Então toca o foda-se, entra pra roda e faz um samba de corno.
-Quem sabe um dia...Tá aqui o teu dinheiro, tenho que voltar para a casa e escrever no tal caderno.
-Tá beleza, qual quer coisa volta que a gente toma uma e reclama da vida.
-Pode deixar!
Me animo em falar com o Cabeça porquê com ele não tem essa de filtro, sai lançando o que pensa, ainda que horrendo e sujo, é um homem puro, com maldade superficial e sorriso amarelado. Gosto dessa podridão, das pessoas feitas de restos de sonhos, vontades reprimidas e idéias estranguladas pelo tempo, mesmo que mortas, ainda sim são ideias, um pouco de mim que se desfaz nas bocas de uma quase noite e se espalha pela imensidão de minha rua...
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