terça-feira, 16 de junho de 2015

Mente dubitável - Parte III

Voltei para casa e resolvi obedecer Christina, me deitei no tapete do quarto e por alguns instantes acabei me "desligando" isso acontece às vezes, no mais; fiquei ali, olhando para o teto e mesclando as minhas ideias com o branco embolorado da parede, a mancha de infiltração faz com que eu sinta meio que acompanhada, afinal não sou só eu que existo por desleixo dos outros. Falo isso por conta da relação que tenho com a minha família.
     Nasci com o cordão umbilical enrolado em meu pescoço, numa tarde vazia de domingo, meu pai morreu me maldizendo, pois nasci atrapalhando o jogo. Minha mãe me desmamou antes dos seis meses, tive anemia, vivia doente e fiquei internada por um tempo. A vontade de morrer, eu carrego deis do meu nascimento, talvez seja essa vontade me motive a continuar vivendo...
    Largando um pouco esse negócio de família, vamos para o boteco, não um boteco qualquer e sim um boteco pequeno, com gordura no azulejo, pingas vagabundas, bêbados caídos e um cara metido a malandro fazendo jogo do bicho. Costumo chegar sempre de lado, com um olhar meio torto, é a minha forma de me defender de certas cantadas e de não ter que dividir os meus cigarros. Mal chego e já dou de cara com o Cabeça, ele é um tipo de amigo meu, sempre escorado no balcão do bar, se diz dono, mas a ex-mulher vive o ameaçando de tirar tudo, como se esse tudo fosse lá grade coisa:
-Fala, minha Linda. Demorou para dar as caras hoje.
-Nada, tive que ir para a consulta, fiz uma hora em casa e agora estou aqui.
-Já falei pra você largar de frescura, esse negócio de depressão é coisa de quem não sabe beber. 
-E quem disse que eu sei beber? Atualmente eu só mando para dentro, sem motivo ou vontade.
-Bom, eu bebo pra poder sorrir, depois que aquela vaca me largou, só o que tenho é o bar e minhas dividas. Vai vendo aí o que você vai beber, que eu vou acertar a conta do engomadinho ali.
    Acenar com a cabeça é o suficiente, afinal o Cabeça é um cara pratico que me define como uma viciada que gosta de indagar, ele acredita que a maioria das minhas piras é por conta da bebida, quando na verdade a bebida só me amolece, gosto quando ele me chama de linda, nunca fui lá muito elogiada e detesto o meu nome:
-Pronto, já sabe o que quer?
-Saber eu não sei, mas em consideração ao tempo morno, vou ficar com a cerveja.
-Meia-hora pra no final das contas você me dizer que quer cerveja.
-Estou com preguiça de pensar sobre copos, só quero virar, conversar um pouco e pagar a porra da minha conta.
-Toma a tua cerveja e vê se bebe sorrindo, tô te dando mais prazer do quê a tal doutora e te cobrando bem menos.
-Isso é verdade, mas não vem ao caso.
-Tanto faz, qual foi a merda que ela te falou dessa vez?
-Nada muito importante, tenho que continuar escrevendo no tal caderno.
-O diário?
-Não é um diário, segundo ela é algo mais profundo.
-Linda, profundo de cu é rola, já chega a minha ex falando que eu preciso ser profundo, agora vem você com essa putaria? Você tem é que mandar essa tal doutora ir colar velcro com alguma paciente retardada e já era. Você é ajeitadinha, poderia muito bem arrumar um namorado e largar dessa mania de se sentir doente. 
-Eu poderia fazer isso, mas tenho medo, preguiça, sei lá. Já me fodi tanto emocionalmente que por agora estou evitando qualquer tipo de intensidade emocional. 
-Então toca o foda-se, entra pra roda e faz um samba de corno.
-Quem sabe um dia...Tá aqui o teu dinheiro, tenho que voltar para a casa e escrever no tal caderno.
-Tá beleza, qual quer coisa volta que a gente toma uma e reclama da vida. 
-Pode deixar!
    Me animo em falar com o Cabeça porquê com ele não tem essa de filtro, sai lançando o que pensa, ainda que horrendo e sujo, é um homem puro, com maldade superficial e sorriso amarelado. Gosto dessa podridão, das pessoas feitas de restos de sonhos, vontades reprimidas e idéias estranguladas pelo tempo, mesmo que mortas, ainda sim são ideias, um pouco de mim que se desfaz nas bocas de uma quase noite e se espalha pela imensidão de minha rua...


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