A consulta estava marcada para às 20h, como de costume
cheguei 15 minutos adiantados para observar a sala de estar da Dra. Christina.
Há vários quadros de Picasso e Dali, esculturas contemporâneas e algumas
revistas contendo temas de alto ajuda. O que me chama atenção é seu cinzeiro
feito de argila, com corpos nus se entrelaçando, uma bela arte.
Christina me chama ao seu escritório e iniciamos a
sessão, sinto-me pagando por ter uma amiga com quem conversar e receber
conselhos. Nunca engoli essa história de psiquiatra, mas acabo cedendo pelos
meus poucos amigos que dizem que me fará bem algumas sessões de terapia. Falo
sobre meus dias e viajo em pequenas regressões da minha vida, sinto-me bem por
algumas horas, mas quando chego em casa é sempre a mesma e velha melancolia.
Seu apartamento ficava no 8° andar, adorava aquela
vista, ao olhar para a janela da sala de
estar, havia uma cerejeira enorme, viva e alegre, me imaginava no lugar dela
todas as vezes, mas não passava de uma rosa murcha de dia dos namorados,
esquecida no dia seguinte jogada em cima de uma cômoda qualquer ou até mesmo
numa lata de lixo dentre garrafas de vinhos e camisinhas usadas.
Christina certa vez me disse que precisaria aceitar
alguns fatos passados para poder seguir minha vida, mas que fatos? São tantos...
Seria mais fácil morrer e nascer novamente, ou não nascer. Ao contrário dela
sou mulher da vida, não gosto de me programar a nada, não tenho controle do
passado, presente e futuro, gosto de viver à base de riscos, desamores e bons
botecos que encontro no caminho pra casa.
Relatar meu dia em um caderno e listar meus defeitos e
qualidades não me torna uma pessoa mais normal, nem mais feliz. Creio que serve
apenas para demonstrar o quão sou insegura e tola. Ainda não entendi o porquê
ela me pede isso toda semana, já são meses com essa merda de terapia e não vi mudança
nenhuma. Gasto de dinheiro e perda de paciência define.Talvez eu não queira
ajuda, talvez eu queira somente algumas horas com quem conversar de tudo e não
ser julgada por nada.
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