Adoro ouvir o barulho da chuva
Cada gotejar que cai sobre meu telhado
Cada passagem do vento que bate
Contra minha janela
Adoro o barulho da chuva caindo
Sobre o telhado, o buraco do teto
Entre os vãos da minha janela
Ela se forma, desliza, cai e ali permanece
É como fazer sexo
Troque o estado gasoso pelo líquido
Substitua o gotejar, por ejacular
O barulho, pelo gemido
A chuva, pelo gozo infinito
O telhado, por uma face
A janela, pela vagina da vizinha
O vento, pelo pau endurecido
Ele se forma, desliza, cai e ali permanece
Adoro ouvir o gemido do gozo infinito
quarta-feira, 24 de junho de 2015
terça-feira, 16 de junho de 2015
Mente Dubitável – Parte I
Tenho
reparado no contorno de minha alma e o que vejo são os restos que me deixaram.
Sempre quis uma vida completa; amigos, família; amores, um bom emprego e o
mínimo de foco para me concentrar nos estudos que a sociedade exige... Ilusão! Tudo que sempre tive foi ilusão e
migalhas de sentimentos remoídos na chance de ser qualquer coisa.
Talvez eu esteja tão vazia quanto esta garrafa
de conhaque, para qual eu olho com pena. Assim como ela, fui tomada sem
degustação. Acerto de contas, samba picado, desamor, consolo em gotas... Que
seja, mas sei que não foi a gota, sei porque conheço meus poucos limites, minha
idéia rasa que se faz profunda, meus medos e vontades.
Foram tantos os beijos vividos
e sonhados, que num suspiro engasgado se perdeu no tempo, este cru,
repleto de pudores que me traga, sou a carta na manga do malandro, perdida
entres becos e o amarelado de teu abajur, sim; eu sou do tipo de pessoa que se
perde nas tantas cores...
A cada trago engulo a dor que me dilacera, consigo
enxergar na fumaça cada fincada que já levei, incontáveis são elas meu caro,
mas se me perguntares de minha importância, direi que não há nenhuma. Nem a maior das dores me afeta mais, ninguém
é capaz de me sensibilizar. Aquela que um dia usou renda, hoje veste prata.
O prazer e o lamento de ser só são divinos. Viver e
nada mais. Explorar egos distintos, saborear mentes doentes e absorver-me de
corações puros sempre me pareceu um bom negócio. Uma pessoa sã de sua vivência
deveria experimentar um pouco do que lhe digo. Refiro-me à desejo carnal e
mental...Essa história toda de coração me dá náuseas, só de pensar durmo de
tédio.
Mente Dubitável – Parte II
A consulta estava marcada para às 20h, como de costume
cheguei 15 minutos adiantados para observar a sala de estar da Dra. Christina.
Há vários quadros de Picasso e Dali, esculturas contemporâneas e algumas
revistas contendo temas de alto ajuda. O que me chama atenção é seu cinzeiro
feito de argila, com corpos nus se entrelaçando, uma bela arte.
Christina me chama ao seu escritório e iniciamos a
sessão, sinto-me pagando por ter uma amiga com quem conversar e receber
conselhos. Nunca engoli essa história de psiquiatra, mas acabo cedendo pelos
meus poucos amigos que dizem que me fará bem algumas sessões de terapia. Falo
sobre meus dias e viajo em pequenas regressões da minha vida, sinto-me bem por
algumas horas, mas quando chego em casa é sempre a mesma e velha melancolia.
Seu apartamento ficava no 8° andar, adorava aquela
vista, ao olhar para a janela da sala de
estar, havia uma cerejeira enorme, viva e alegre, me imaginava no lugar dela
todas as vezes, mas não passava de uma rosa murcha de dia dos namorados,
esquecida no dia seguinte jogada em cima de uma cômoda qualquer ou até mesmo
numa lata de lixo dentre garrafas de vinhos e camisinhas usadas.
Christina certa vez me disse que precisaria aceitar
alguns fatos passados para poder seguir minha vida, mas que fatos? São tantos...
Seria mais fácil morrer e nascer novamente, ou não nascer. Ao contrário dela
sou mulher da vida, não gosto de me programar a nada, não tenho controle do
passado, presente e futuro, gosto de viver à base de riscos, desamores e bons
botecos que encontro no caminho pra casa.
Relatar meu dia em um caderno e listar meus defeitos e
qualidades não me torna uma pessoa mais normal, nem mais feliz. Creio que serve
apenas para demonstrar o quão sou insegura e tola. Ainda não entendi o porquê
ela me pede isso toda semana, já são meses com essa merda de terapia e não vi mudança
nenhuma. Gasto de dinheiro e perda de paciência define.Talvez eu não queira
ajuda, talvez eu queira somente algumas horas com quem conversar de tudo e não
ser julgada por nada.
Mente dubitável - Parte III
Voltei
para casa e resolvi obedecer Christina, me deitei no tapete do quarto e por
alguns instantes acabei me "desligando" isso acontece às vezes, no
mais; fiquei ali, olhando para o teto e mesclando as minhas ideias com o branco
embolorado da parede, a mancha de infiltração faz com que eu sinta meio que
acompanhada, afinal não sou só eu que existo por desleixo dos outros. Falo isso
por conta da relação que tenho com a minha família.
Nasci com o cordão umbilical enrolado em meu pescoço, numa tarde vazia de domingo, meu pai morreu me maldizendo, pois nasci atrapalhando o jogo. Minha mãe me desmamou antes dos seis meses, tive anemia, vivia doente e fiquei internada por um tempo. A vontade de morrer, eu carrego deis do meu nascimento, talvez seja essa vontade me motive a continuar vivendo...
Largando um pouco esse negócio de família, vamos para o boteco, não um boteco qualquer e sim um boteco pequeno, com gordura no azulejo, pingas vagabundas, bêbados caídos e um cara metido a malandro fazendo jogo do bicho. Costumo chegar sempre de lado, com um olhar meio torto, é a minha forma de me defender de certas cantadas e de não ter que dividir os meus cigarros. Mal chego e já dou de cara com o Cabeça, ele é um tipo de amigo meu, sempre escorado no balcão do bar, se diz dono, mas a ex-mulher vive o ameaçando de tirar tudo, como se esse tudo fosse lá grade coisa:
-Fala, minha Linda. Demorou para dar as caras hoje.
-Nada, tive que ir para a consulta, fiz uma hora em casa e agora estou aqui.
-Já falei pra você largar de frescura, esse negócio de depressão é coisa de quem não sabe beber.
-E quem disse que eu sei beber? Atualmente eu só mando para dentro, sem motivo ou vontade.
-Bom, eu bebo pra poder sorrir, depois que aquela vaca me largou, só o que tenho é o bar e minhas dividas. Vai vendo aí o que você vai beber, que eu vou acertar a conta do engomadinho ali.
Acenar com a cabeça é o suficiente, afinal o Cabeça é um cara pratico que me define como uma viciada que gosta de indagar, ele acredita que a maioria das minhas piras é por conta da bebida, quando na verdade a bebida só me amolece, gosto quando ele me chama de linda, nunca fui lá muito elogiada e detesto o meu nome:
-Pronto, já sabe o que quer?
-Saber eu não sei, mas em consideração ao tempo morno, vou ficar com a cerveja.
-Meia-hora pra no final das contas você me dizer que quer cerveja.
-Estou com preguiça de pensar sobre copos, só quero virar, conversar um pouco e pagar a porra da minha conta.
-Toma a tua cerveja e vê se bebe sorrindo, tô te dando mais prazer do quê a tal doutora e te cobrando bem menos.
-Isso é verdade, mas não vem ao caso.
-Tanto faz, qual foi a merda que ela te falou dessa vez?
-Nada muito importante, tenho que continuar escrevendo no tal caderno.
-O diário?
-Não é um diário, segundo ela é algo mais profundo.
-Linda, profundo de cu é rola, já chega a minha ex falando que eu preciso ser profundo, agora vem você com essa putaria? Você tem é que mandar essa tal doutora ir colar velcro com alguma paciente retardada e já era. Você é ajeitadinha, poderia muito bem arrumar um namorado e largar dessa mania de se sentir doente.
-Eu poderia fazer isso, mas tenho medo, preguiça, sei lá. Já me fodi tanto emocionalmente que por agora estou evitando qualquer tipo de intensidade emocional.
-Então toca o foda-se, entra pra roda e faz um samba de corno.
-Quem sabe um dia...Tá aqui o teu dinheiro, tenho que voltar para a casa e escrever no tal caderno.
-Tá beleza, qual quer coisa volta que a gente toma uma e reclama da vida.
-Pode deixar!
Me animo em falar com o Cabeça porquê com ele não tem essa de filtro, sai lançando o que pensa, ainda que horrendo e sujo, é um homem puro, com maldade superficial e sorriso amarelado. Gosto dessa podridão, das pessoas feitas de restos de sonhos, vontades reprimidas e idéias estranguladas pelo tempo, mesmo que mortas, ainda sim são ideias, um pouco de mim que se desfaz nas bocas de uma quase noite e se espalha pela imensidão de minha rua...
Nasci com o cordão umbilical enrolado em meu pescoço, numa tarde vazia de domingo, meu pai morreu me maldizendo, pois nasci atrapalhando o jogo. Minha mãe me desmamou antes dos seis meses, tive anemia, vivia doente e fiquei internada por um tempo. A vontade de morrer, eu carrego deis do meu nascimento, talvez seja essa vontade me motive a continuar vivendo...
Largando um pouco esse negócio de família, vamos para o boteco, não um boteco qualquer e sim um boteco pequeno, com gordura no azulejo, pingas vagabundas, bêbados caídos e um cara metido a malandro fazendo jogo do bicho. Costumo chegar sempre de lado, com um olhar meio torto, é a minha forma de me defender de certas cantadas e de não ter que dividir os meus cigarros. Mal chego e já dou de cara com o Cabeça, ele é um tipo de amigo meu, sempre escorado no balcão do bar, se diz dono, mas a ex-mulher vive o ameaçando de tirar tudo, como se esse tudo fosse lá grade coisa:
-Fala, minha Linda. Demorou para dar as caras hoje.
-Nada, tive que ir para a consulta, fiz uma hora em casa e agora estou aqui.
-Já falei pra você largar de frescura, esse negócio de depressão é coisa de quem não sabe beber.
-E quem disse que eu sei beber? Atualmente eu só mando para dentro, sem motivo ou vontade.
-Bom, eu bebo pra poder sorrir, depois que aquela vaca me largou, só o que tenho é o bar e minhas dividas. Vai vendo aí o que você vai beber, que eu vou acertar a conta do engomadinho ali.
Acenar com a cabeça é o suficiente, afinal o Cabeça é um cara pratico que me define como uma viciada que gosta de indagar, ele acredita que a maioria das minhas piras é por conta da bebida, quando na verdade a bebida só me amolece, gosto quando ele me chama de linda, nunca fui lá muito elogiada e detesto o meu nome:
-Pronto, já sabe o que quer?
-Saber eu não sei, mas em consideração ao tempo morno, vou ficar com a cerveja.
-Meia-hora pra no final das contas você me dizer que quer cerveja.
-Estou com preguiça de pensar sobre copos, só quero virar, conversar um pouco e pagar a porra da minha conta.
-Toma a tua cerveja e vê se bebe sorrindo, tô te dando mais prazer do quê a tal doutora e te cobrando bem menos.
-Isso é verdade, mas não vem ao caso.
-Tanto faz, qual foi a merda que ela te falou dessa vez?
-Nada muito importante, tenho que continuar escrevendo no tal caderno.
-O diário?
-Não é um diário, segundo ela é algo mais profundo.
-Linda, profundo de cu é rola, já chega a minha ex falando que eu preciso ser profundo, agora vem você com essa putaria? Você tem é que mandar essa tal doutora ir colar velcro com alguma paciente retardada e já era. Você é ajeitadinha, poderia muito bem arrumar um namorado e largar dessa mania de se sentir doente.
-Eu poderia fazer isso, mas tenho medo, preguiça, sei lá. Já me fodi tanto emocionalmente que por agora estou evitando qualquer tipo de intensidade emocional.
-Então toca o foda-se, entra pra roda e faz um samba de corno.
-Quem sabe um dia...Tá aqui o teu dinheiro, tenho que voltar para a casa e escrever no tal caderno.
-Tá beleza, qual quer coisa volta que a gente toma uma e reclama da vida.
-Pode deixar!
Me animo em falar com o Cabeça porquê com ele não tem essa de filtro, sai lançando o que pensa, ainda que horrendo e sujo, é um homem puro, com maldade superficial e sorriso amarelado. Gosto dessa podridão, das pessoas feitas de restos de sonhos, vontades reprimidas e idéias estranguladas pelo tempo, mesmo que mortas, ainda sim são ideias, um pouco de mim que se desfaz nas bocas de uma quase noite e se espalha pela imensidão de minha rua...
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