Nunca neguei meu gosto por delicadeza; um sopro de vento, um
banho de mar, uma oferenda de rosa e perfume, beijos no beco e assim vai...
Como de costume levantei cedo, joguei água gelada na vista torcida, tropecei na
mesinha da sala, acendi um cigarro na boca do fogão, voltei para o meu quarto,
abri a janela e fiquei por ali; reparando o vento e o leirado das crianças da
vizinha. Numa dessas de reparar, a bendita da vizinha sai e grita:
-Bom dia seu Pedro.
Ainda tropo das
pernas e da vida, quase não respondi a senhora de ancas largas e sorriso
claro...
-Bom dia dona Marta, como vai à senhora?
-Vou vivendo, sabe como é; o Marquinhos operou da fimose faz
dois dias e já quer sair para jogar bola, vê se pode seu Pedro, o menino mal
sarou e já quer virar bicho?
Por que diabos eu
fui perguntar se ela está bem, eu costumo defecar para os vizinhos e para o
mundo, tenho que parar de ser falso.
-Deixa o menino dona Marta, cada um sabe onde dói.
-Mas seu Pedro, o senhor já operou da fimose? É de fazer dó.
-Se operei não me lembro, mas acho que nunca tive problemas,
vou voltar para a cozinha porque deixei o fogo ligado, mas depois continuamos a
falar da fimose de seu filho.
-Vai lá seu Pedro, fogo ligado é um perigo.
Finalmente a
gralha calou a boca, não me importo com barulho, me importo mesmo é quanto o
barulho resolve me dizer bom dia, eu lá tenho cara de quem gosta de ser
amigável? Só queria fumar meu cigarro, olhar os pombos e reparar nos moleques,
sei lá, gosto de ver criança, não por gostar de crianças, até porque, mal falo
com os meus sobrinhos, muito menos com os filhos dos outros, o negocio é que
fico do quinto andar vendo tudo, me sentindo um deus pagão, desinformado e mal
amado, olhando para o tempo que passou sambando na minha cara. Cara que hoje é
amarrada, que vive de fumo, musica e pelos...
Voltei para cozinha, sentei-me na velha cadeira de madeira e
pensei um instante a quão saborosa a tal da Dona Marta é.
Deve ser a única explicação plausível para que tenha tantos filhos, já que
quando abre à maldita boca, toda sua beleza se vai a cada respingo de saliva,
onde suas palavras são extremamente descartáveis. Pois bem, me deparo com um
troço duro logo a minha frente. Voltei para a janela.
Ao passar dos anos não ligamos tanto para o conteúdo, quando
se percebe que está ficando velho e sozinho, a única coisa que se deseja é ter
com quem foder só para garantir que ainda está vivo. Não me importo, não tenho
mais nada a perder, o que eu já tive de melhor foi perdido nas entre linhas da
vida.
-Dona Marta, poderia subir até o meu andar? Preciso trocar
umas palavras com a senhorita.
- Tudo bem seu Pedro, só espere um momento!
Lá vem ela, toda desengonçada de tanto rebolar as cadeiras,
solta os bobs do cabelo enquanto eu a vejo pelo olho mágico do outro lado da
porta.
- O que deseja seu Pedro? Está precisando de alguma coisa?
Pensei uma vez e
agi duas. Sem trocar uma palavra a virei e a beijei intensamente, deixando
minha barba deslizar por seu pescoço, acariciando cada parte de seu corpo e ela
sem interrogar, entrou na minha dança com corda bamba. Durou menos de 15
minutos, não consegui me segurar por muito tempo, não estava nem um pouco
preocupado com a satisfação dela, só queria me garantir e isso foi o suficiente,
logo a mandei embora, não queria ouvir a gralha novamente, afinal, não queria
estragar meu momento “êxtase” .
As puras moças que
não se aproximem; ogro ou santo, meu nome vai acabar no mesmo lugar, numa
lápide cinza, com a minha irmã chorando e me chamando de anjinho. Por agora vai
rodar nas bocas das pulhas: “Homens são todos iguais!” É complicado não pensar
no próprio pau quando a parceira de ocasião está te avaliando para contar para
as amigas. Para a grande maioria das mulheres sexo é só abrir as pernas e
levantar a bunda, mas qualquer pessoa certa da cabeça sabe que sexo pode ir
além da carne e muito além da garganta, não estou falando de encontrar o tal
ponto G, estou falando de saber ser mais que um pedaço de carne viva e
vermelha, ir além dos desamores passados e procurar um acaso e não mais um para
lista de bons meninos.